Doutor em Ciências Económicas e Empresariais pela Universidade Autónoma de Lisboa, Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, Lisboa. Licenciado em Ciências da Comunicação. Professor universitário (Laureate International Universities e Universidade Católica Portuguesa – Porto) e conferencista. Comentador residente na estação televisiva Económico Tv (ETV). Escreveu a biografia oficial de José Mourinho. Autor dos livros José Mourinho, José Mourinho: Um Ciclo de Vitórias, Liderança: As lições de Mourinho e Mourinho A descoberta Guiada. Jornalista Editor da TSF, desde a sua fundação e durante dezassete anos, tendo como enviado especial conhecido mais de setenta países em todos os continentes do mundo. Trabalhou também na SIC e no jornal O Jogo. Presidente do Vitória de Setúbal e VFC/SAD em 2008/2009 e administrador do Vitória de Setúbal/SAD em 2005, ano em que o clube venceu a Taça de Portugal. Medalha de Honra da cidade de Setúbal por mérito desportivo.

O líder-treinador: a importância da liderança no futebol

Um ou dois anos depois de José Mourinho ter “explodido” no mundo do futebol dizia-se, em Portugal, que ele transformava jogadores banais em super jogadores e equipas banais em super equipas.

Quando Pep Guardiola iniciou a sua carreira de treinador principal no Barcelona e os resultados do seu trabalho começaram a aparecer, desde cedo se percebeu que estávamos perante um treinador diferente, um estilo diferente de jogar, uma nova forma de abordar os princípios do jogo.

Ao fim de mais de duas décadas ao comando do Manchester United, Sir Alex Fergusson mantém-se firme ao leme do clube, ganha com consistência e afirma-se, todos os dias, como um técnico que vale mais, é superior aos seus jogadores e tem-se a sensação que sem ele o Manchester valerá metade do que vale.

Trata-se de três treinadores que se destacam de todos os outros, que apresentam resultados e que já ganharam praticamente tudo o que há para ganhar no mundo do futebol. Estes treinadores, juntos, na última década, obtiveram mais sucesso que todos os outros.

O que, então, os torna diferentes? Sim, porque eles são, efetivamente, diferentes.

Será que eles sabem mais de futebol que os outros?  Sabem mais de tática? Sabem mais técnica? De como se prepara uma equipa? Conseguem fazer melhores observações de adversários? Descobrem jogadores que os outros não descobrem? Têm segredos quanto aos princípios de jogo que pretendem? Sabem algo que os outros não sabem sobre o próprio jogo?

Julgo que não. Acho que no mundo global de hoje já está tudo nos livros, na net e acessível em qualquer parte do mundo a qualquer um. Quem quiser saber de tática, de técnica, do jogo, basta ligar um computador ou ir a uma livraria ou biblioteca. Quem quiser saber como joga o Real, o Barcelona ou o Manchester basta ligar a televisão.

Porque são, então, estes três homens únicos e irrepetíveis? Porque é que ninguém consegue ganhar o que eles ganham? Enfim, porque é que Mourinho transforma jogadores e atinge resultados? Como é que Guardiola pegou um conjunto de simples jogadores da “cantera” e os transformou na melhor equipa do mundo? Porque é que Sir Alex, ao fim de mais de 20 anos, continua a ganhar e todos os dias se consolida mais e melhor como treinador do Manchester?

Serão eles melhores treinadores do que os outros? Para mim são, mas não porque saibam mais de futebol que os outros. São melhores porque a sua mais-valia enquanto treinadores se consolida nas suas capacidades de liderança. É aqui que eles são muito diferentes dos outros: na sua liderança! E é por isso que eles são inimitáveis. Porque um líder não se imita. Ele é único porque é quem é, da forma como está ali, pelo homem e ser humano que é, pela sua família, pelos seus amigos, pelo seu contexto. As suas vitórias não são fruto do acaso, não são furtuitas e não são efémeras. Ganham hoje e continuam a ganhar amanhã. Os títulos não dependem deste ou daquele jogador, da bola que bateu na trave, do árbitro que não marcou o penalti. Porquê? porque eles antes de jogarem já são campeões e já são campeões não porque sabem mais de futebol que os outros, mas porque são líderes diferentes dos outros e é aqui que reside o seu grande segredo: eles sabem, cada um ao seu estilo e no seu contexto, como conduzir homens antes de saberem conduzir jogadores. É por isso que ganham consistentemente.

Em última análise eu diria que a eficácia máxima da liderança se consegue quando o líder consegue retirar dos seus liderados o melhor que eles têm para dar, o melhor que têm dentro de si.

Mourinho, Guardiola e Fergusson são os três treinadores que conheço que mais perto estarão de atingir este desígnio. Porquê? Porque não são apenas treinadores, são treinadores-líderes, com tudo o que isso significa. Antes de serem treinadores são líderes e este facto marca a indelével diferença. Por isso, eles conseguem retirar dos seus jogadores o melhor que eles têm para dar. Por isso eles não constroem, apenas, jogadores. Eles constroem campeões na sua globalidade. Está no ADN da sua liderança. E os seus jogadores, que também querem ser campeões, sabem bem isso. Sabem que com eles ganham mais, que com eles são melhores, logo seguem-nos e ao segui-los dispõem-se a dar o melhor de si em prol do grupo que representam. Ora, é esta a grande diferença entre os lideres treinadores e aqueles que são apenas treinadores. A sua motivação passa por transformar os seus profissionais em profissionais mais competentes na sua globalidade, como homens, como jogadores, como pais, filhos, amigos, etc. Esta é uma motivação que não se paga, que não tem preço, que não tem prémio de jogo. Não há dinheiro que me pague a sensação de ser hoje um homem mais completo do que era ontem. É desta forma que o conceito de “superação” assume capital importância na temática da liderança. No fundo, a história do ser humano é a história da sua luta pela superação. É a constante luta que temos para nos superarmos todos os dias, que nos faz levantar todos os dias e ir à procura de mais e melhor. Por isso falamos em incompletude, só nos tentamos superar porque estamos e estaremos sempre até morrer, incompletos. Também por isso, quando falamos na história do ser humano, falamos numa história inacabada, ou uma história sempre por cumprir em todas as circunstâncias. A história do ser humano, enquanto ele puder transcender-se ou superar-se, nunca estará acabada.

Ora, é esta ideia de superação, que estes três treinadores conseguem incutir nos seus jogadores e ao fazê-lo “prometem-lhes” que eles vão ser melhores amanhã do que são hoje. Livremente, eles dispõem-se a dar o melhor de si para cumprir os objetivos globais, de todos e de cada um. Estamos, então, a falar de liderança, de condução de seres humanos e isto faz toda a diferença, por isso também faz toda a diferença sermos líderes ou apenas treinadores.

Retirar o melhor que cada um tem dentro de si não depende de qualquer ordem. O meu superior hierárquico pode obrigar-me a executar uma tarefa e eu executo-a. Jamais ele me poderá obrigar a dar o melhor de mim mesmo na execução dessa tarefa. Isso é algo que já depende da minha vontade interior e isso nenhum homem controla, a não ser eu próprio. Logo, eu só dou o melhor de mim quando quero. Então quando é que eu dou o meu melhor? Quando acredito e quando acredito sigo. É aqui que se funda a liderança. Quando o líder nos faz acreditar que se eu seguir o seu caminho vou ser um homem melhor, um profissional mais capaz, que vou conseguir vencer, que vou poder proporcionar, a mim e aos meus, um melhor futuro. Todos ganhamos. É aí que eu dou o melhor de mim mesmo, quando acredito que estou no caminho certo porque vou receber algo em troca e não, necessariamente, dinheiro. No fundo, é quando acredito que amanhã me vou superar, e depois de amanha também, e depois de depois de amanhã também… e assim eu sei que a minha história não vai acabar por aqui. A minha motivação é constante, porque há sempre algo em que eu me vou poder superar.

É assim que Mourinho, Guardiola e Fergusson conduzem as suas equipas. Os seus jogadores, no Real, no Barcelona ou no Manchester, já são ricos, já tem títulos, já ganharam o respeito da sociedade. O que os move, então? O que os faz correr? Dinheiro? Títulos? Admiração? Eles já têm tudo isto. Desta forma, é na sua busca pela superação que encontramos a resposta. Por isso, acho que quem apenas sabe de futebol…de futebol nada sabe. Primeiro, antes de tudo, vem o humano. Os jogadores, antes de serem profissionais são homens e Mourinho, Guardiola e Fergusson, sabem-no bem. Perceberam claramente, que estão no capítulo do humano, que antes de falarem ao jogador têm de falar ao homem. Só depois vem o futebol.

É este o seu segredo e a partir daqui operacionalizam toda  a sua liderança. É isto que torna as suas equipas diferentes, por isso ganham consistentemente, por isso já são campeões mesmo antes de jogarem, por isso, como disse, embora com estilos muito diferentes, marcam a história do futebol mundial: porque são líderes, muito antes de serem treinadores de futebol.

Luis Lourenço